'Da Felicidade'



Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz! - M. Quintana

Encontrou-o em uma loja, tentando se comunicar com a vendedora e com uma peça de roupa feminina caríssima em suas mãos, mais meia dúzia de peças masculinas dobradas cuidadosamente.  Entendeu que ele queria trocar a blusa da namorada. Não falava português, definitivamente.

Observou a situação por alguns minutos e não querendo interferir na comunicação truncada de ambos,  finalmente ofereceu ajuda. Ele sorriu com seus olhos azuis, aliviado por escutar sua língua e aceitou o auxílio com muitos ‘thank you’ e alguns ‘please’.

Entendeu que a namorada estava fora; havia passado as festas longe dele que estava trabalhando naquele país quente e tão diverso ao seu. Entendeu também que ele estava comprando roupas pois não sabia como chegar à lavanderia e pedir para deixar as roupas lá. Entendeu que o que haviam combinado havia sido mudado repentinamente. Entendeu que ele estava tentando adaptar-se a alguém tão singular, com hábitos tão dissemelhantes. Em 15 minutos entendeu tudo. E caiu... Caiu em si.  Num túnel do tempo de 2.190 dias.

Enquanto ele discorria num discurso ao fundo, distante, quase que inaudível, lembrou de tudo que havia feito. TUDO errado. Não era o tipo de pessoa de validar seus sentimentos com palavras e elogios superficiais, recheadas de ‘cama’, beijos demorados, abraços de três ‘’mississipis’. Era na sua. Sua forma de retratar seus sentimentos era rigorosamente adversa ao que ele lhe contava. Não iria deixar alguém que veio de longe sem roupas lavadas, cheirosas e passadas, não iria deixá-lo passar o Ano Novo sozinho, não iria... nem iria...  Iria limpar a casa para recebê-lo, iria preparar a comida que ele podia e gostava de comer. Iria fazer as compras no mercado, pagar por seu bolo de aniversário, limpar a casa dele, sair no domingo (que ela detestava). Estaria lá, disposta, velando por algo que JAMAIS iria acontecer. 

Imersa nos seus pensamentos escutou-o repetir 'com licença' com aquele sotaque inconfundível e desculpou-se pela enxurrada de informações. Encontrava-se visivelmente exaurido de apostar, arriscar, confiar. Ela já havia visto esse filme. Ela já sabia como ele iria terminar. Só que ele ainda teria que viver aquilo um pouco mais, talvez até mais alguns anos, até chegar o dia em que teria que seguir por si, talvez trocado por um par de calças novas. Ela não podia intrometer-se.  Só sabia que necessitava de um tempo pra digerir aquelas informações tão valiosas que ele lhe permitia. Definitivamente, aquele encontro não fora fortuito.

Por fim, ele lhe perguntou como poderia retribuir pela ajuda, afinal, não havia nem lhe perguntado seu nome. Ela que havia lhe assistido naquela sinuca de bico, que havia lhe ouvido e mostrado o caminho da lavanderia. Não lhe disse que ELE a havia ajudado a cair na real. Não lhe disse que era tão grata quanto ele pela efemeridade do encontro. Em vez disso apenas lhe entregou seu cartão de visitas com um ar profissional e experiente e foi viver sua vida nova.





' Do Amoroso Esquecimento'

" Eu, agora - que desfecho! 
Já nem penso mais em ti... 
Mas será que nunca deixo,
   De lembrar que te esqueci?" 

Ah, Mário...Após quase dez anos ele veio com toda força e trouxe à tona a frase estampada em uma xícara comprada em uma lojinha perto de seu escritório. A xícara foi dada de presente despretensiosamente, porém com pretensão - de não ser esquecida nem retirada de seu mundo diferente, que ficava a alguns quilômetros de sua casa mas que parecia ser em outra dimensão; de ser lembrada de repente, meio ao café e a uma conversa que NÃO seriam com ela, mas que o traria direto e instantaneamente àquela esfera que haviam criado somente para si.

Lembrou do que combinaram - e de tudo que SEMPRE cumpriram. Não havia necessidade de relembrá-lo; estava combinado = estava combinado. Exatamente como ela. Não haveria desencontros, nem mentiras, nem desculpas esfarrapadas. Não iria sair de sua vida com memórias inadequadas ou doloridas. Não iria simplesmente sair como se nunca tivesse entrado, nem tampouco iria enviar a ela objetos mofados e empoeirados. NEVER! Esse não era ele. Seu cuidado era proporcional ao dela: os lençóis cheirosos que eram preconizados; a gentileza permanente ao pedir pra desligar o ar-condicionado, o elogio simples, sincero, honesto, puro, real, genuíno, imperturbado pela multidão, sem plateia, sem aprovação.

Ela gostava do colar de estrela dele. Ele gostava do colar redondo dela. Tão diferentes e tão semelhantes... Ele iria quebrar suas regras, suas crenças e seu sagrado por ela. Iria vir na sexta, trabalhar no sábado, viria para o almoço e não para 'almoçá-la'. Faria malabarismos para encontrá-la, dirigiria como louco na noite para vê-la, para tê-la, para jantarem, para conversarem sem altercações, para beberem vinho e conversarem sobre a vida agendada e atribulada.

Continuaria a vir no aniversário dela como frequentemente fazia e a encontraria num país distante para ouvi-la sem interrompê-la e pra deixá-la dizer tudo o que ela não teve tempo de dizer. Ela falou aliviada, sem cobranças, exprimindo o que sempre sentira, com tranquilidade, calma, alheia ao tempo e espaço implacáveis.

Permitiu-se apenas viver aquele momento e apreciar a paisagem do ano que se vislumbrava tímido por principiar, mas audaz, aguerrido por avançar e levá-la de volta ao seu lugar, ao som do vento e do frio que ela tanto amava.






Fui



Ela levou anos pra decidir. Levou 21 anos na verdade. Só que chegara o dia. O dia do ‘saco cheio’. ‘ Today is the day. ’ PONTO. Perguntava-se porque demorara tanto tempo pra tomar uma decisão. Logo ela que era a Senhora Decisão, que vivia se vangloriando de ser uma mulher enérgica, dona do seu nariz, consciente, concisa, confusa...
Se tudo nos últimos anos tinha se tornado uma droga, por que não cortar o vício de uma vez por todas? Por que continuar algo que definitivamente não trazia mais alegrias, mais saudades, mais prazer?
Pensava na sua dor. Naquela maldita dor nas costas e no pescoço que não passava. Aquela dor de cabeça que não lhe pertencia. Pensava nas dores do parto que teria mais uma vez. Pensava que o que lhe doía agora não fora o momento ruim, a palavra ‘despejada’ e grosseira, o descuido repetido, a falta de atenção. Não fora a indecisão do outro, o orgulho disfarçado, o volume da voz ou o perder a linha. Não fora o excesso, a arrogância velada, a oportunidade perdida do silêncio, a imaturidade, a carência, a impulsividade, a falta de diálogo ou entendimento. Tampouco fora o  perder-se, o perder por vezes de SI, ou resgatar alguém que nem mais existia. Isso foi, passou, embora fosse e estivesse presente.
O que doía era remover da vida os poucos momentos agradáveis de felicidade, de longas conversas, de partilha, a doação desmedida e despojada, o ensinamento, a música detalhada, a fruta cortada, o café adoçado, a cama arrumada, as flores na mesa, o pão frito.
O que lhe doía era perder de vista o dia-a-dia do outro, a palavra inteligente e dita sem pretensão; o que lhe feria era lembrar da espera ansiosa, do prazer da companhia e da presença, da risada divertida, da simplicidade das coisas.
O que lhe pesava era o ser incapaz de transformar, de adaptar e não se ter alternativa nem habilidade ou sensibilidade para criar novas fórmulas feitas com frutas  exóticas, banhos de chuva e baldes nas goteiras. Era o não saber transmutar os sons altos, os telefones que tocavam, os fantasmas que rondavam, as grandes tristezas e as imensas alegrias, as fotos e quadros nas paredes, os chaveiros que piscavam, os livros, os cds, as luminárias de papel e os pratos sujos na pia.
Pesou na balança. Tentava-se ver antes e depois, como nas fotos da Internet. Não seria a primeira nem a última. Hesitou por alguns momentos e olhou pela última vez ao redor. Se algum dia precisara disso, agora não precisava mais. Nunca mais, decretou. Pegou a sacola barata que continha as poucas coisas que lhe ainda eram estimadas. Contou os ‘pilas’ na carteira e percebeu que podia pegar um táxi na esquina para chegar na rodoviária. Antes de fechar a porta enviou um WhatsApp dizendo simplesmente, 'Fui (sonhar meu sonho)'.

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No Domingo



Lembrei de uma grande amiga. Lembrei do tempo que passamos juntas e do quanto ela me fez feliz, ou rir, ou ficar braba. Lembrei das vezes em que estava irritada e que descarreguei nela minha frustração, minhas tristezas, meus problemas, minha dor. E, no tempo em que nossa amizade durou, nunca, simplesmente nunca, vi em seus olhos censura, reprovação, austeridade ou julgamento. Muito pelo contrário. Ela tinha olhos lindos, meigos, profundos, que enxergavam minha alma como ninguém e que me evitavam quando eu ficava muito tempo longe dela sem dar notícias. Aí ela se tornava indiferente, superior, inatingível. Nunca foi extremamente amorosa (a menos que tivesse algum interesse), mas eu entendia esse seu traço menos bom e fazia de conta que não percebia. Porém, na maioria das vezes em que nos encontrávamos, eu notava sua alegria ao me rever. Normalmente estava contente, faceira, gostava de passear na rua a pé, ou de carro, gostava de flertar, de ser vista. Era bonita, estilo mignon, mas tinha postura, presença, sendo contemplada por onde passasse. Era inteligente (até demais para o meu gosto), além de um pouco manipuladora. Era teimosa, não aceitava conselhos de ninguém e não gostava que falassem alto com ela.Tinha muita personalidade, um timing próprio, era dona do seu nariz.

Nossa amizade foi longa, instantânea. Nos gostamos mutuamente, desde a primeira vez em que nos encontramos num sábado de manhã, quando percebi que 'ela' me escolhera pra ser sua amiga - e não eu a dela. Me senti privilegiada, especial, a escolhida.

Era uma amiga cara, de saúde debilitada, com quem eu não hesitava repartir meu dinheiro a qualquer hora do dia ou da noite. Não havia final de semana nem feriado. Na hora que ela precisava eu estava lá. Sempre.

Quando jovem era namoradeira. E quando se apaixonava ficava louca, desvairada. Amores breves, passionais, com desconhecidos, muito diferentes de sua origem sofisticada. Momentos em que eu conversava com ela e tentava lembrá-la disso. Afinal, ela era uma 'lady'. Não adiantava. Ela não ouvia. Ouvia o que queria.

Com a idade foi ficando mais doente. Eu constatava isso em seu corpo e em seu comportamento. Não namorava mais, passava muito tempo deitada, dormindo, roncando, preguiçosa. E o fantasma aquele da separação me alertava que ela iria embora a qualquer momento...

Em suas últimas semanas fiquei dia e noite com ela. Gastei o que eu tinha e o que eu não tinha. Levei-a ao médico e fizemos tudo o que foi possível. Ela me olhava e eu sabia que ela me agradecia, mesmo não falando. Me agradecia por saber que eu estava lá e que eu dava a ela minha companhia, meu amor sem condições, meu tempo, meu melhor. Foram dias cansativos, de frio seco, céu azul e vento gelado. Dias lindos de inverno. Quase um ano atrás. Quase um ano que eu não conseguia falar sobre isso. Quase um ano que minha grande amiga se foi.

Lembro dela muito, com uma imensa saudade, que não me permite fazê-lo sem tristeza, com egoísmo.

Dorinha se foi. E com ela se foi um monte de mim. E me dou conta que esses elos que estabelecemos simplesmente tornam a vida mais fácil, mais feliz, menos 'eu'. Nos fazem mais próximos do real, da natureza, de nós mesmos, daquilo que de verdade somos e não do que possuímos ou imaginamos ser. O difícil não é estabelecer, é interromper.







Não deu tempo